Se você toma Zolpidem todas as noites para conseguir dormir e acha que isso é um problema, essa conversa é com você.
Alguns dos meus pacientes chegam ao consultório com queixas parecidas: começaram a tomar Zolpidem em uma fase difícil da vida, e hoje, depois de meses ou anos, percebem que não conseguem mais dormir sem o comprimido. Alguns tentaram parar sozinhos e tiveram noites em claro, ansiedade, taquicardia. Outros aumentaram a dose por conta própria, porque a original parou de funcionar.
Que medicamentos são esses?
No Brasil, três moléculas formam a família que chamamos informalmente de Drogas Z:
- Zolpidem (Stilnox, Lioram, Patz, entre outros)
- Zopiclona (Imovane)
- Eszopiclona (Prysma)
Eles foram lançados no fim dos anos 90 com uma promessa importante: oferecer o efeito hipnótico (indutor do sono), com menor potencial de dependência e meia-vida mais curta em relação aos benzodiazepínicos (como Diazepam, Clonazepam e Alprazolam).
Os benzodiazepínicos podem causar problemas como: uso nocivo (uso em doses maiores que as prescritas), síndrome de dependência, sintomas intensos de abstinência e efeitos colaterais com o uso prolongado (esquecimento, sonolência diurna e redução da atenção). As chamadas Drogas Z surgiram como uma alternativa para o efeito hipnótico com menos efeitos adversos.
O que a prática clínica mostrou
Vinte e poucos anos depois do lançamento, a literatura médica e a observação clínica chegaram a uma conclusão incômoda: com o tempo de uso, as Drogas Z apresentam exatamente a mesma problemática de dependência dos benzodiazepínicos.
Em 2025, a Academia Brasileira de Neurologia publicou uma diretriz clínica reconhecendo a dependência por Drogas Z como uma preocupação crescente de saúde pública no Brasil[1]. O documento orienta uso de no máximo quatro semanas e descreve os caminhos seguros para a retirada.
Tolerância, dependência, abstinência. Tudo o que se queria evitar voltou a aparecer, só que com outro nome no rótulo.[1]
Por que isso acontece? Para entender, precisamos entender como esses remédios funcionam no cérebro.
As Drogas Z agem em uma parte específica de receptores GABA (a subunidade α1) de neurônios do sistema nervoso central. O resultado é o de indução do sono, motivo pela qual foram desenvolvidas. Em doses mais altas, o uso atinge outras subunidades (α2, α3 e α5), e aí o efeito muda completamente: pode aparecer euforia, sensação de maior sociabilidade, delírios e, em alguns casos, experiências psicóticas.
É essa segunda atuação, fora do propósito original, que ajuda a explicar por que algumas pessoas desenvolvem padrões de uso problemáticos.
Três perfis de uso problemático
Na prática clínica, identificamos três perfis distintos de pacientes que chegam buscando ajuda:
Quem busca apenas o efeito hipnótico
É o perfil mais comum. A pessoa começou a tomar por causa da insônia. Com o tempo, a dose original parou de funcionar, e ela a aumentou (sozinha ou com nova prescrição). Hoje, não consegue dormir sem o comprimido. Não busca outro efeito, só quer dormir, mas tornou-se dependente.
Quem percebeu um efeito “antidepressivo-like”
Algumas pessoas relatam uma sensação de bem-estar antes de dormir, uma quietude agradável, uma diminuição da angústia. Sem perceber, passam a usar o medicamento também por esse efeito, e a dose tende a subir.
Quem busca o efeito estimulante e eufórico
Em doses mais altas, especialmente quando a pessoa luta contra o sono que o remédio induz, podem aparecer efeitos de euforia, soltura social, alterações de percepção. Esse perfil costuma combinar a Droga Z com outras substâncias e o quadro evolui para dependência mais complexa.
Os três perfis são reais. Os três precisam de tratamento, e cada um tem uma estratégia diferente de retirada.
Quando vale a pena parar
A decisão de retirar uma Droga Z não é tomada por capricho médico. Ela aparece quando pelo menos uma destas situações está presente:
- O remédio não traz mais o benefício clínico que trazia no começo. A dose precisa subir cada vez mais para o mesmo efeito.
- A condição que motivou a prescrição já se resolveu. A insônia era situacional (luto, estresse intenso, mudança de fase de vida) e hoje a pessoa continua tomando por hábito ou medo de não dormir.
- Os efeitos negativos superam os benefícios. Sonolência diurna, lapsos de memória, episódios de comportamentos durante o sono (caminhar, comer, comprar, dirigir sem lembrança no dia seguinte), quedas em pessoas idosas.
- Já houve desenvolvimento de transtorno por uso de substâncias. Critérios clínicos específicos identificam esse quadro, que vai além do uso simples.
- Existe o desejo de interromper. Esse último critério é o que mais importa. Mesmo na ausência de complicações graves, se a pessoa quer parar, é possível e desejável construir esse caminho.
Como funciona o processo de retirada
A retirada de Drogas Z não é da noite para o dia, e não é um protocolo único aplicado a todos.
Em consulta, eu faço:
Entrevista e avaliação individualizada
Há quanto tempo usa, em que dose, por qual motivo começou, o que mudou, o que está acontecendo no resto da vida, que outras condições clínicas e psiquiátricas estão presentes. Cada uma dessas variáveis muda a estratégia.
Formulação de um plano terapêutico individual
A retirada combina estratégias farmacológicas (substituição gradual, ajuste de doses, eventual uso de outros medicamentos para ansiedade ou insônia residuais) e estratégias não farmacológicas (higiene do sono, terapia cognitivo-comportamental para insônia, manejo da ansiedade que aparece no processo).
Estimativa realista do tempo
Algumas retiradas são rápidas, outras levam semanas ou meses. Saber dessa duração logo no início ajuda a pessoa a se preparar emocional e logisticamente para o processo, sem expectativas erradas.
O que eu quero que você leve dessa leitura
Se você está usando Zolpidem, Zopiclona ou Eszopiclona há mais tempo do que imaginava, ou em doses maiores do que começou, ou simplesmente percebeu que não consegue mais dormir sem o comprimido.
A retirada existe. É segura quando feita com o acompanhamento. E o resultado, na maioria dos casos, é uma pessoa dormindo melhor do que dormia com o remédio.